Quando o perdão entra em casa - Sermão de 19/04/2026
- Pastor Sérgio Fernandes

- há 15 horas
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Sejam compreensivos uns com os outros e perdoem quem os ofender. Lembrem-se de que o Senhor os perdoou, de modo que vocês também devem perdoar. Colossenses 3:13 (NVT)
INTRODUÇÃO
Neste mês de abril, temos dedicado nossas manhãs de domingo para refletir a respeito do poder do evangelho para a manutenção de lares fortes.
No primeiro sermão, falamos sobre o plano de Deus para as famílias e, no segundo, demonstramos como o evangelho estimula uma cultura familiar repleta de amor, serviço e compaixão.
Em todo esse percurso, tenho sido cuidadoso em evitar qualquer tentativa de sugerir a possibilidade de existirem famílias perfeitas.
Qualquer núcleo familiar, seja ele religioso ou não, é composto por pessoas e, onde há pessoas, há imperfeição.
E é justamente nesse contexto que surgem as tensões familiares. Você sabe do que estou falando:
Aquela palavra dita fora de hora;
Aquela data comemorativa que infelizmente passou batida;
A indiferença ou até mesmo a incompreensão;
Aquela traição que não deveria ter acontecido;
Aquele toque que não deveria ter sido dado.
Problemas familiares são potencialmente mais destrutivos que qualquer outra relação pessoal, uma vez que acontece no ambiente que deveria ser emancipador e protetivo.
Feridas familiares são difíceis de curar!
Hoje, se eu me sentar com qualquer um de vocês aqui para tomar um café, certamente seremos capazes de recordar o quanto essas feridas de alguma forma definiram nossas vidas e até mesmo nosso senso de valor.
Eu me compadeço sinceramente de você.
Suas dores e feridas importam.
Eu não senti o que você sentiu.
Mas conheço Alguém que me ensinou o poder do perdão.
Então, nessa manhã não quero simplesmente falar de dores
e mágoas que sofremos. Quero falar de cura!
A graça que conheci e que vem me ensinando a lidar com as tensões familiares é acessível e está disponível também para você.
Então, quero dialogar com vocês sobre perdão e graça em meio às tensões familiares. Espero que o Espírito esteja conosco e que essa reflexão te ajude a experimentar em Deus o poder real do perdão.
O NÚCLEO DO EVANGELHO
Como fiz cuidadosamente nos sermões anteriores, não podemos falar a respeito de perdão sem olharmos para o coração de nossa religião.
Ao longo das páginas da Bíblia Sagrada, o que encontramos é um drama que conta a bela história do Deus que é glorificado perdoando pecadores pelo sacrifício de Seu Filho.
Então, a Bíblia é a história do Deus ofendido que decidiu nos perdoar.
Essa é a leitura que conecta seus livros, os testamentos e a sua mensagem.
Deus amorosamente e soberanamente decide perdoar homens e mulheres que o ofendem com seus muitos pecados.
O drama bíblico é conhecido de todos nós:
Nós vivemos em um universo criado e sustentado por Deus, Gn 1.1.
Nossos pais, Adão e Eva, transgrediram o mandamento divino e se tornaram culpados diante do Criador, Gn 2,3;
Deus prometeu ao homem que enviaria um descendente humano que poria fim à inimizade entre o Criador e Suas Criaturas, Gn 3.15;
Jesus, nosso Senhor, nasceu de uma virgem, viveu uma vida sem pecado e subiu à cruz, suportando ali a ira divina em favor de todos que serão salvos, Mc 10.45;
Deus promete perdoar e salvar todos aqueles que creem no sacrifício substitutivo feito por Jesus, At 10.43
Toda a Bíblia Sagrada narra a forma pela qual Deus decide perdoar a humanidade pecadora através de Nosso Senhor Jesus Cristo, como Paulo bem sintetizou.
É a respeito dele que todos os profetas dão testemunho, dizendo que todo o que nele crer receberá o perdão de seus pecados por meio de seu nome”. Atos 10:43 (NVT)
Querido, essa notícia é maravilhosa! A bondade de Deus não nos submete a uma servidão sem graça e propósito, mas a uma relação repleta de ternura e compaixão.
Embora nossos pecados nos tornem culpados diante de Deus, Ele oferece Seu Único Filho na cruz para nos reconciliar com Ele.
É dEle a iniciativa de podermos recomeçar!
E Ele perdoa todos os nossos pecados. Esse é o espírito do evangelho da graça que anunciamos.
...
Então, como premissa inicial desse sermão, entendo que o perdão é um assunto divino.
Deus, Nosso Pai, sabe o valor de perdoar. Ele, o Deus ofendido, graciosamente nos oferece perdão pela morte de Seu Filho na cruz (e somente através dela).
Sejam compreensivos uns com os outros e perdoem quem os ofender. Lembrem-se de que o Senhor os perdoou, de modo que vocês também devem perdoar. Colossenses 3:13 (NVT)
O perdão divino não apenas reconcilia a humanidade com Deus, mas também é a força que move a reconciliação entre os homens. As Escrituras partem da premissa do perdão recebido como o fundamento do perdão que oferecemos.
Em vez disso, sejam bondosos e tenham compaixão uns dos outros, perdoando-se como Deus os perdoou em Cristo. Efésios 4:32 (NVT)
Falar de perdão é lindo, até precisarmos perdoar alguém.
Nossa mente fica agitada, as memórias aprofundam as feridas, inúmeros diálogos internos acontecem.
Imaginamos cenários, contextos e alternativas.
Deus sabe o quanto é difícil perdoar, mas sabe também que reter o perdão pode gerar problemas até maiores do que a dor que foi causada em nossas vidas.
Então, como um Pai zeloso, Ele nos ensina a orarmos perdoando. Isso é excelente!
e perdoa nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores. Mt 6.12
Quando perdoamos, reconhecemos nossa natureza de pecadores perdoados e nos identificamos com Deus perdoador.
Quando retemos o perdão, podemos acidentalmente retirar Cristo do centro de nossa fé, não reconhecendo a gratuidade do amor que nos foi dado por Ele sangrando na cruz.
“Seu Pai celestial os perdoará se perdoarem aqueles que pecam contra vocês. Mas, se vocês se recusarem a perdoar os outros, seu Pai não perdoará seus pecados.” Mt 6.14,15
Então, Deus chama Seu povo para imitá-lo e isso implica em construirmos um caráter semelhante ao dEle. Se Ele perdoa, nós que seguimos o Salvador perdoador devemos perdoar também.
Portanto, como filhos amados de Deus, imitem-no em tudo que fizerem. Efésios 5:1 (NVT)
Então, pela ótica do evangelho, perdoar envolve a decisão livre que tomamos de não nos tornarmos escravos da necessidade de reparação do mal que sofremos.
Envolve também a nossa submissão contínua ao senhorio de Jesus Cristo, que nos permite pela Sua graça lidar com todas as consequências dessa decisão.
Quando perdoamos, de boa vontade entregamos o ofensor nas mãos do próprio Deus, que perdoa e julga com justiça.
Nunca paguem o mal com o mal. Pensem sempre em fazer o que é melhor aos olhos de todos. No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: “A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor”. Romanos 12.17-19.
Perdoar significa não permitirmos que nossas feridas nos definam, uma vez que somos definidos pelo amor e pelo sangue que foram derramados na cruz do Calvário.
Na continuidade do sermão, quero refletir sobre os desafios que envolvem perdoar e de que modo o evangelho nos permite trilhar essa decisão com sabedoria e prudência, mesmo em contextos onde o perdão não proporcione uma completa restauração nos relacionamentos feridos.
OS MALES DE RETER O PERDÃO
Quando lemos as Escrituras, estamos vendo histórias reais, de famílias reais e que tinham problemas reais (a repetição é intencional).
Não existe um núcleo familiar sem problemas nos seus relacionamentos.
Por mais virtuosos que sejamos, temos uma natureza maculada pelo pecado e podemos eventualmente falhar miseravelmente no trato com nossos semelhantes.
Então, embora seja lindo (de fato) o que Cristo fez por nós, encarnar o perdão na vida cotidiana é um grande desafio.
É nisto que consiste o amor: não em que tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como sacrifício para o perdão de nossos pecados. 1João 4:10 (NVT)
Entendo que pela natureza de nossa fé, cada um de nós tem acesso a recursos espirituais que nos auxiliam no processo, mas isso não significa que não será doloroso.
Perdoar dói: rasga nosso orgulho e nossa sede humana por reparação.
Mas não liberar o perdão causa agravos que excedem as questões da alma e podem afetar inclusive o nosso corpo. Exemplos:
aumento da pressão arterial;
insônia;
ansiedade e depressão;
irritabilidade;
queda na imunidade
Você sabe exatamente do que estou falando. Acontece com você!
Você se pega resmungando sobre esse fato
Você sente um ressentimento profundo quando a memória volta da superfície
Sua raiva é tamanha que você não consegue pensar ou falar da pessoa sem conter as emoções afloradas.
Obviamente, quero escapar da simplicidade das generalizações.
Reconheço que algumas pessoas não sentem o peso de não liberar o perdão.
Talvez porque as feridas foram profundas demais.
Ou simplesmente porque a vida não lhes permitiu outra atitude.
Mas isso não significa que não seja necessária a liberação desse sentimento.
Reter o perdão é como tomar um copo de veneno esperando que a outra pessoa morra.
Não vale a pena! Já é suficiente a dor que você está sentindo pela ofensa que sofreu. Então, como um caminho bíblico na direção de um exercício honesto de perdão, quero no próximo tópico desmistificar alguns aspectos do tema e te direcionar pela doce estrada da restauração e por caminhos que ela inevitavelmente nos conduz.
COMO PERDOAR BIBLICAMENTE
Na experiência pastoral, aprendi que o ponto de partida para perdoar é focalizarmos na glória de Deus.
Perdoar dói, mas nos identifica com Cristo e sua paixão.
Isso favorece nosso discipulado e a própria compreensão de nossa salvação.
Então, não perdoe por perdoar. Isso desidrata a força dessa experiência.
Perdoe porque isso agrada a Deus;
Perdoe porque você se reconhece como alguém perdoado;
Perdoe porque você sabe que Deus sempre fará o que é certo; Ele é Justo!
Mas não trate o perdão como uma decisão simples, como se fosse resumido a apertar um botão.
Na cruz, vemos que o perdão que nos foi dado custou tudo de Cristo.
E perdoar, certamente irá custar algo de nós.
Então, no ato de perdoar, traga a memória alguns pontos de discernimento.
Algumas feridas que carregamos são resultado de nossa interpretação de fatos que não necessariamente se deram na forma como os enxergamos.
Exemplo: É comum em dramas familiares filhos se lembrarem de pais ausentes ou pais se referirem aos filhos como insensíveis e ingratos.
Mas, diante disso, faça as seguintes perguntas:
Será que as pessoas envolvidas não estavam fazendo o seu melhor, com o melhor que possuíam naquela fase e maturidade da vida?
Eu tinha discernimento amplo para julgar se aquilo era de fato má intenção?
Não estariam nossos familiares apenas replicando comportamentos aprendidos? Será que imaginavam o quanto suas atitudes (ou a falta delas) estavam nos ferindo por dentro?
Obviamente, não quero com isso romantizar ou diminuir a dor que você sentiu. Mas refletir sobre isso pode nos oferecer um caminho de redenção.
Se esse é o seu caso, perceba como Cristo foi bondoso em te oferecer no seu exemplo um modelo de vida que te permite perdoar e não repetir os males que você sofreu.
Então, assim como Jesus não te rejeitou e te ofereceu um perdão livre, faça o mesmo.
Essa estrada pode produzir as lágrimas, os sorrisos e os abraços que te faltaram.
Deus atua no tempo e enquanto há vida, há possibilidades de restauração.
E “não pequem ao permitir que a ira os controle”. Acalmem a ira antes que o sol se ponha. Efésios 4:26 (NVT)
...
Outras feridas são resultado direto de maldade praticada com requinte e intenção.
Exemplo: O marido que traiu ou agrediu a esposa. A mãe narcisista que humilhou os filhos a ponto de desestruturá-los. O pai que abusou dos filhos.
São aquelas dores secretas que nos impedem de ver a vida colorida e sorrir na presença do Senhor. Essa pode ser a marca que você carrega nessa manhã.
Nesses casos, muitos retém o perdão não pela dificuldade em si de perdoar, mas pelo temor do perdão ser sinônimo de uma restauração completa no relacionamento com o ofensor.
Perdoar não é (e nunca foi) sinônimo de esquecimento.
Cristo ressuscitou com as feridas nas mãos e nos pés.
A marca permaneceu. Mas o amor e o perdão triunfaram.
Sim, há histórias de pessoas que pela graça de Cristo foram capazes de perdoar a ponto de restaurar a relação por completo.
Nós cremos em um evangelho que transforma.
Mas há situações em que somente o perdão pode ser liberado.
Sem possibilidade alguma de contato ou restauração.
Deus sabe que nesse mundo caído, alguns rompimentos podem durar mais tempo.
No que depender de vocês, vivam em paz com todos. Romanos 12:18 (NVT)
...
E há também aquelas feridas que foram causadas por eventualidades e desencontros, sem razão ou causa definida. Por incrível que pareça são as mais comuns.
Exemplo: Pessoas que se estranharam por opiniões, divergências em assuntos não essenciais, ou por ouvirem fatos de terceiros sem terem apurado a realidade por trás deles.
Esse é um dos principais problemas que acometem as famílias (mesmo as cristãs).
E geram boas horas de gabinete.
A esposa que não queria que o marido orasse, mas que simplesmente a abraçasse.
O marido que não queria mais uma cobrança da mulher, apenas ouvir um "eu estarei do seu lado".
O filho que notou um tratamento diferenciado dos pais com relação aos irmãos, e não sabia como solucionar ou pedir ajuda.
Esse é um caso que pede um exercício constante de conversas francas e verdadeiras. A família pede que haja em seu seio verdade e compreensão.
Eu costumo falar em casa assim: falem sempre a verdade, mesmo que isso faça com que o seu pior apareça.
Com Cristo, estamos aprendendo a amar, apesar das imperfeições.
Esse é o sentido de ser família: suportar, encorajar, confiar, esperar!
Deus usa a verdade e a misericórdia como ferramentas de renovação e restauração.
Não mintam uns aos outros, pois vocês se despiram de sua antiga natureza e de todas as suas práticas perversas. Colossenses 3:9 (NVT)
Não haverá misericórdia para quem não tiver demonstrado misericórdia. Mas, se forem misericordiosos, haverá misericórdia quando forem julgados. Tiago 2:13 (NVT)
...
E por fim, lembre-se que perdoar é somente o passo inicial.
O perdão não muda o fato de termos sido feridos, mas ele anula o poder que essa ferida tem de governar nossos sentimentos e emoções.
É por isso que muitas vezes quando liberamos o perdão, ainda sentimos a ferida nos machucando. Isso exige de nós aquela contínua dependência de Jesus.
Quando estou no processo de liberar o perdão para alguma ofensa que recebi, eu faço uma oração com o objetivo de me colocar no campo de batalha correto:
"Senhor, tenho consciência que sou um pecador perdoado e que meus pecados ofendem tua santidade. Assim como reconheço pela graça o perdão que recebi, me ajude a perdoar essa pessoa com a mesma intensidade do perdão que recebi de Ti".
As vezes, faço essa oração uma única vez. As vezes, por duas semanas.
As vezes, por um mês inteiro. E percebo que, aos poucos, a graça aplicada no meu coração vai me libertando dos resquícios de amargura que ainda sentia.
Essa graça vem de Cristo.
Experimente fazer o mesmo!
CONCLUSÃO
Você se lembra que eu disse que perdoar dói.
O evangelho é a boa notícia que nos garante perdão e recomeços!
Tanto com Deus quanto com os homens!
Então, se você se enxergou ao longo do sermão, olhe para a cruz de Cristo!
Pela encarnação, Cristo suportou no corpo o preço do perdão.
Em cada gota de sangue que Jesus derramou na cruz, Ele não tratou o perdão como algo simples, mas como algo necessário.
Foi o perdão dEle que redirecionou destinos de milhões de pessoas que passaram pela cruz e hoje invocam o seu nome.
Você não será definido pelo seu passado querido irmão.
As feridas que você sofreu não precisam te paralisar!
Há liberdade profunda no perdão que Cristo nos oferece!
Deixe suas dores aos pés da cruz!
Vou terminar o sermão com uma pequena história real.
Há algum tempo, me reuni com um amigo com quem há anos não me comunicava. Bem, amizades não se esfriam sem motivo.
E a nossa tinha algumas rusgas que Deus, através do tempo, se encarregou de resolver.
Sim, eu fiz a oração que ensinei acima.
Mas não foi por um mês (mas devem ter sido alguns dias, haha).
Mas aprouve a Deus que nos encontrássemos.
E depois de uma longa e edificante conversa, ele precisou verbalizar:
"Sérgio, me perdoe se falhei com você!"
Eu analisei naquele momento minha consciência e vi que nada de ruim do passado governava meus sentidos ou emoções. E glorifiquei a Deus por isso.
Mas ele precisava ter a certeza em Cristo de fazer o certo.
E eu fiquei feliz porque o perdão de Cristo o constrangeu.
Nos abraçamos e sentimos aquela comunhão que o povo de Deus conhece profundamente.
Então, assim que terminar esse culto, entre em contato com aquele amigo que sumiu.
Com aquele familiar com quem você não tem falado.
Diga a palavrinha mágica que mais dói no mundo: "me perdoa"?
E experimente na prática o poder do evangelho do Senhor Jesus!
Que o Deus Perdoador te abençoe!

Pastor Sérgio Fernandes
Pastor Titular da IPR





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