DIANTE DE QUEM VOCÊ VIVE? - Sermão de 01/02/2026
- Pastor Sérgio Fernandes
- há 6 dias
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Atualizado: há 22 horas

Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o Senhor a Abrão e disse-lhe: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença e sê perfeito. Gênesis 17.1
INTRODUÇÃO
Vivemos numa geração que se preocupa muito com quem está olhando.
Postamos, ajustamos a imagem, escolhemos palavras, filtramos emoções — tudo para causar uma boa impressão.
Mas raramente paramos para fazer a pergunta mais importante de todas:
diante de quem eu realmente vivo?.
A tradição cristã usa uma expressão antiga para responder isso: Coram Deo.
É latim, e significa simplesmente: “diante da face de Deus.”
Viver Coram Deo é reconhecer que toda a nossa vida acontece na presença do Senhor — não apenas no culto, não apenas quando oramos, mas em cada escolha, pensamento e atitude.
Historicamente falando, quem popularizou e sistematizou o termo como conceito teológico foi João Calvino, no período da Reforma.
Para Calvino, Coram Deo significava viver cada aspecto da vida consciente da presença santa de Deus, nada separado em “sagrado” e “secular”.
Ele via isso como o coração da piedade cristã.
Antes de aprofundarmos esse conceito, quero que você guarde isso no coração: não existe área neutra da nossa vida.
Tudo é vivido diante de Deus.
O DEUS DIANTE DE QUEM VIVEMOS
Não é possível compreender o Coram Deo sem uma ideia bíblica a respeito de Deus e de Sua natureza.
Talvez essa seja a fraqueza do nosso cristianismo moderno.
Ao invés de lermos a Escritura e aceitarmos o que Ela revela sobre o Deus que servimos, nós temos criado “um deus desidratado” ou “um deus diminuído", substituindo assim o Deus verdadeiro por uma versão mais confortável aos nossos hábitos e costumes.
Esse falso deus é fraco. Ele existe apenas para nos mimar e nos socorrer, nunca para nos confrontar ou nos instruir nos caminhos da justiça.
Muitas pessoas hoje vivem diante desse falso deus.
Mas não é sobre ele que falaremos nessa manhã.
Vamos falar sobre o Deus apresentado na Escritura.
E ela afirma duas características dEle que são significativas para a compreensão do Coram Deo: Sua transcendência e imanência.
Duas palavras que não fazem parte de nosso vocabulário diário, mas com sentido simples e fácil de ser assimilado.
Quando falamos que Deus é transcendente, estamos dizendo que Ele é maior do que a criação.
Ele não faz parte do universo: Ele criou o universo.
Deus está acima do tempo, do espaço e da matéria.
“O céu é o meu trono, e a terra o tapete para os meus pés. Que tipo de casa vocês poderiam construir para mim? É este o meu lugar de descanso? Não foram as minhas mãos que fizeram todas essas coisas, e assim vieram a existir?”, diz o Senhor. Is 66.1,2
Nada O limita.
Ele reina soberano, exaltado, santo, separado de tudo o que é comum.
...
Se parássemos aqui, poderíamos pensar que Deus é grande demais para se importar conosco!
Mas as Escrituras também nos falam da imanência de Deus.
Isso significa que Ele está perto, presente e envolvido com Sua criação.
O mesmo Deus que habita a eternidade também caminha conosco.
Ele vê nossas lágrimas, ouve nossas orações, ele resiste aos soberbos e se aproxima dos quebrantados.
Assim diz o Alto, o Sublime, que vive na eternidade, cujo nome é o Santo: “Eu moro naquele lugar alto e santo, mas habito também com o humilde de espírito e com o arrependido, para dar novo ânimo ao humilde e coragem e vontade de viver aos que estão tristes e abatidos por causa de seus pecados. Is 57.15
A transcendência e imanência são características que caminham juntas.
Elas não competem, elas se complementam. E afetam a forma como nós, cristãos, compreendemos o Ser de Deus.
Nenhum cristão bíblico tratará Deus como "amigão". Ele é transcendente, Ele é o Rei. Isso muda a forma como oramos, como cultuamos e como lidamos com o pecado.
Mas também não teremos uma visão de Deus fria ou distante. Ele é um Rei Paternal que se inclina para ouvir nossas orações.
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Esse envolvimento de Deus com a sua criação é o ponto de partida para entendermos o conceito do Coram Deo.
Se Ele nos criou, é o nosso Dono.
Se Ele é o nosso Dono, deve ser reverenciado e obedecido.
Se Ele se envolve com a ordem criada, então não existe um só momento da nossa vida fora da Sua presença.
...
A transcendência de Deus e Sua imanência se fundem de modo perfeito na encarnação de Jesus Cristo. Ao se fazer carne, o Deus Altíssimo se aproxima de modo único da humanidade que Ele criou, para estar conosco para sempre!
Pois nasceu um menino; um filho nos foi dado. Ele recebe todo o poder, o governo de toda a terra. E ele será chamado de Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno e Príncipe da Paz. Is 9.6
Na encarnação, Jesus demonstra para nós o tipo de vida que agrada a Deus. Ele é então o modelo de vida que temos de imitar e seguir por crermos em Seu nome.
Na sua morte na cruz, Ele torna o Coram Deo possível, pois somente através de seu sacrifício os pecadores podem ser reconciliados com o Pai Celestial para andarem em Sua presença.
Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode chegar ao Pai, a não ser por mim. Jo 14.6
Jesus é o Caminho para Deus e o Caminho para vivermos diante de Deus.
A FALSA IDEIA DE AUTONOMIA ESPIRITUAL
Como vimos anteriormente, cada ser humano vive diante do Senhor.
Nós somos dele; pertencemos a Ele por direito de criação.
A terra pertence ao Senhor! O mundo e tudo o que nele vive pertencem a ele. Salmo 24.1
Todos vivemos diante de Deus, isso é fato.
Mas nem todas as pessoas vivem suas vidas de forma agradável a Ele.
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Você já teve aquela experiência de despistar-se da vista de alguém para evitar contato e dissabores que um encontro possa causar?
Assim é o homem tentando fugir do Seu Criador.
O pecado causou no coração humano um estranho sentimento de autonomia.
O homem vive agora "em fuga", tentando desviar-se do seu Criador para não precisar se sujeitar a Ele.
Como Caim, muitas vezes nós escolhemos “sair da presença do Senhor”.
Assim Caim afastou-se da presença do Senhor e foi estabelecer-se na terra de Node, a leste do Éden. Gn 4.16
Essa falsa autonomia, que produz a "fuga de Deus", foi retratada de forma brilhante por Paulo no primeiro capítulo da Epístola aos Romanos.
Assim, Deus mostra do céu sua ira contra todos que são pecadores e perversos, que por sua maldade impedem que a verdade seja conhecida. Sabem a verdade a respeito de Deus, pois ele a tornou evidente. Por meio de tudo que ele fez desde a criação do mundo, podem perceber claramente seus atributos invisíveis: seu poder eterno e sua natureza divina. Portanto, não têm desculpa alguma. Sim, eles conheciam algo sobre Deus, mas não o adoraram nem lhe agradeceram. Em vez disso, começaram a inventar ideias tolas e, com isso, sua mente ficou obscurecida e confusa. Rm 1.18-22
Um exemplo prático da "fuga de Deus" pode ser visto na forma como a fé cristã é ridicularizada em nossa cultura.
Pense em filmes e séries de TV: os personagens que tem fé sempre são tolos e fúteis. A religião sempre é vista de forma negativa e opressora. Já a libertinagem é celebrada como virtude e personagens libertinos costumam ser apresentados como autênticos heróis.
Mas a "fuga de Deus" também aparece quando evitamos a oração, relativizamos o pecado ou adiamos o arrependimento pessoal das iniquidades que cometemos.
Já afirmava Basílio de Cesaréia nos primeiros séculos da era cristã.
"Não é possível tornar o inferno atraente,
então o demônio torna atraente o caminho
que leva até lá." .
E antes de apontarmos para fora, precisamos lembrar: esse texto também descreve o coração humano sem Cristo — inclusive o nosso, antes da graça nos alcançar.
...
Por isso, nossa presença no mundo, como comunidade cristã, é um convite vivo a uma alternativa de vida.
Nós não fugimos de Deus, nós corremos para Seus braços.
Toda a Escritura apresenta Deus conclamando homens e mulheres para pararem de brincar de esconde-esconde com o Seu Criador e renderem-se a Ele.
Ele é a fonte de vida e de salvação.
Busquem o Senhor enquanto podem achá-lo; invoquem-no agora, enquanto ele está perto. Que os perversos mudem de conduta e deixem de lado até mesmo a ideia de fazer o mal. Que se voltem para o Senhor, para que ele tenha misericórdia deles; sim, voltem-se para nosso Deus, pois ele os perdoará generosamente. Is 55.6,7
Jesus pregou o mesmo convite, chamando homens para uma mudança concreta de vida pela fé em Seu Nome.
A partir de então, Jesus começou a anunciar sua mensagem: “Arrependam-se, pois o reino dos céus está próximo”. Mt 4.17
Os apóstolos também pregaram a mesma mensagem, convidando homens e mulheres a abandonarem a falsa autonomia e a se renderem ao Criador.
Pedro respondeu: “Vocês devem se arrepender, e cada um deve ser batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão de seus pecados. Então receberão a dádiva do Espírito Santo. Essa promessa é para vocês, para seus filhos e para os que estão longe, isto é, para todos que forem chamados pelo Senhor, nosso Deus. Pedro continuou a pregar, advertindo com insistência a seus ouvintes: “Salvem-se desta geração corrompida!”. At 2.38-40.
Por meio do evangelho, Deus nos convida a encerrar a fuga tola de Sua presença e nos rendermos a Ele.
Toda fuga humana é resultado do domínio do pecado no coração.
Como o pecado é uma força interior, nós só podemos percebê-lo nas consequências de quem se entrega aos desejos e comportamentos que ele produz:
Quando seguem os desejos da natureza humana, os resultados são extremamente claros: imoralidade sexual, impureza, sensualidade, idolatria, feitiçaria, hostilidade, discórdias, ciúmes, acessos de raiva, ambições egoístas, dissensões, divisões, inveja, bebedeiras, festanças desregradas e outros pecados semelhantes. Repito o que disse antes: quem pratica essas coisas não herdará o reino de Deus. Gl 5.19-21
Se vivermos permanentemente no domínio do pecado, seremos julgados e condenados por um Deus Santo.
Não se deixem enganar por palavras vazias, pois a ira de Deus virá sobre os que lhe desobedecerem. Efésios 5:6 (NVT)
Como vimos, todos nós estamos Coram Deo.
Mas podemos estar "em fuga" ou "no colo do Pai"
É por intermédio de Cristo que essa ruptura da fuga para a comunhão se torna possível.
Pois, se quando ainda éramos inimigos de Deus nosso relacionamento com ele foi restaurado pela morte de seu Filho, agora que já estamos reconciliados certamente seremos salvos por sua vida. Agora, portanto, podemos nos alegrar em Deus, com quem fomos reconciliados por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Rm 5.10,11
O CORAM DEO É UM CHAMADO PARA SANTIDADE
Nas Escrituras, Deus exigiu que Seu Povo andasse de maneira correta diante de Sua Face.
“E agora, ó Israel, o que é que o Senhor, o seu Deus, requer de você? Somente isto: que tema o Senhor, o seu Deus, que ande em todos os seus caminhos, que ame e sirva ao Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração e de toda a sua alma, guardando os mandamentos do Senhor e as suas leis que hoje ordeno a você para o seu bem. Dt 10.12,13
Os profetas também demonstraram que Deus exige uma fé comprometida.
Nossa relação com Deus não resume-se a termos as crenças corretas, mas a vivermos pela fé de forma correta diante de Sua face.
“Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?” Mq 6.8
Jesus também chamou seus discípulos a essa atitude santa, de expressar a pureza da fé em pureza de vida e amor.
Portanto, sejam perfeitos, como perfeito é seu Pai celestial.” Mateus 5:48 (NVT)
Deus se importa com cada detalhe da vida que vivemos. A Escritura traz orientações sobre diversas nuances da vida humana, das mais simples às mais complexas, por exemplo:
Relacionamentos interpessoais, Ef 4.32; Cl 3.13;
Trabalho e vida prática, Cl 3.23; Pv 16.3;
Uso do dinheiro e bens materiais, Pv 3.9; 1Tm 6.17–19
Pureza moral e domínio próprio,1 Ts 4.3–5; Gl 5.16;
Ansiedades e dores do coração, 1 Pe 5.7; Sl 34.18;
Paulo sintetiza essa busca por uma vida santa diante da face de Deus no versículo que é tão conhecido por nós cristãos reformados, mas que também fez parte da devoção de outras tradições cristãs ao longo da história:
Portanto, quer vocês comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, façam para a glória de Deus. 1Coríntios 10:31 (NVT)
Então, nessa manhã, precisamos encerrar essa dicotomia tola de que existe uma vida espiritual e uma vida pessoal.
Deus não habita apenas em departamentos particulares da nossa vida.
Toda nossa vida está diante dEle.
Nada é irrelevante ou secular diante do Deus Santo que invocamos. Nada está fora do alcance do Seu senhorio.
Ele deseja reinar sobre tudo em nossa vida:
Nossa família;
Nosso trabalho;
Nosso dinheiro;
Nossas ambições;
Nossos anseios;
Nossa intimidade;
Nosso descanso;
Nossos hobbies;
Nosso entretenimento;
Tudo está diante dEle.
E agora, pelo poder de Jesus operando em nossos corações, somos capacitados para obedecermos ao Senhor pela fé no evangelho e a nova vida que temos em união com Cristo Jesus.
Pois bem, devemos continuar pecando para que Deus mostre cada vez mais sua graça? Claro que não! Uma vez que morremos para o pecado, como podemos continuar vivendo nele? Ou acaso se esqueceram de que, quando fomos unidos a Cristo Jesus no batismo, nos unimos a ele em sua morte? Pois, pelo batismo, morremos e fomos sepultados com Cristo. E, assim como ele foi ressuscitado dos mortos pelo poder glorioso do Pai, agora nós também podemos viver uma nova vida. Rm 6.1-6
Sendo assim, quando somos chamados eficazmente por Deus e decidimos seguir a Jesus, assumimos o compromisso de vivermos diante da face de um Deus Santo, não apenas no culto, mas na rotina.
É isso que importa para nós.
Reconhecimento, fama, sucesso... são falsos tesouros que o mundo nos oferece.
O verdadeiro tesouro é o conhecimento de Deus e a fé em Jesus!
E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Jo 17.3
CONCLUSÃO
Meus irmãos, todos nós estamos Coram Deo.
Vivemos diante da face de Deus.
A pergunta não é se Deus nos vê.
A pergunta é: como estamos vivendo diante dEle?
Talvez alguns estejam aqui hoje cansados de fugir. Fugindo da voz de Deus, fugindo do arrependimento, fugindo da entrega. Tentando administrar a própria vida, carregando culpas, feridas e pecados em silêncio.
Mas o evangelho nos diz algo maravilhoso: não precisamos mais correr.
Em Cristo, Deus não nos chama para julgamento primeiro — Ele nos chama para reconciliação.
A Palavra nos convida ao arrependimento.
Arrependimento não é apenas sentir remorso:
É mudar de direção.
É parar de brincar de autonomia espiritual.
É abandonar o pecado.
É voltar-se para Deus.
E junto com o arrependimento vem a fé. Mas, que tipo de fé?
Fé em Jesus.
Fé naquele que viveu perfeitamente diante do Pai por nós.
Fé naquele que morreu na cruz carregando nossa culpa.
Fé naquele que ressuscitou para nos dar uma nova vida.
...
E a você, meu irmão querido, uma palavra pastoral!
Talvez você esteja tentando viver Coram Deo na força do braço.
Não funciona. Só é possível viver diante de Deus porque Cristo abriu esse caminho.
Viver Coram Deo é experimentar o poder da vida nova em união com Jesus.
Não é sobre ser perfeito. É sobre ser reconciliado.
Não é sobre desempenho religioso. É sobre ter um coração rendido.
Se hoje você percebe que tem vivido longe de Deus, este é o momento de voltar.
Se você tem dividido sua vida em compartimentos, este é o momento de entregar tudo.
Se você nunca entregou sua vida a Cristo, hoje é o dia da salvação.
A vida eterna é conhecer o Pai e a Jesus Cristo, a quem Ele enviou.

Pastor Sérgio Fernandes
Pastor Titular da IPR

